O tempo todo no meu pensamento



Nenhum sono
sem sonhos
de amor
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido.

Allen Ginsberg


Ontem mesmo antes da meia-noite, ele já era meu contato no MSN e lá estava ele. Janela aberta. “L” é tudo que eu vi ali no avatar. “Que coerente”, pensei. Mas o e-mail dele não tem a ver com "L". “kenshin himura” é de outro anime. Uma pista sobre ele. Nossa! Quanto segredo entre nós dois.Fomos parar ali, estávamos juntos e de tudo, o que menos falávamos era sobre a gente. Aliás, não falamos nada a nosso respeito, mas eu cometi o “erro” de adicioná-lo ao meu endereço de MSN pessoal. E lá estava parte do meu nome e sobrenome me denunciando, tirando minha máscara de Misa.

Falamos sobre Death Note (anime do qual tiramos nossos nicks), sobre as pessoas que freqüentavam a sala da UOL, sobre o porquê de ele usar “L” e eu, “Misa”. Até que aquele clima de mistério me envolveu e de repente a vontade de me ocultar se transformou num desejo estranho de aparecer (para ele). Não que eu quisesse que ele me visse, apenas quis que ele soubesse um pouco sobre mim e quem sabe... talvez... se interessasse mais e mais e a conversa poderia continuar no outro dia. Eis que comecei a “jogar” com a minha verdadeira identidade e eu fui me revelando.

Meu nome... acabei falando, pois estava quase óbvio por causa do e-mail. Entre chutes e palpites, ele descobriu, dentre outras coisas, minha profissão e o estado em que moro. E eu fiquei apenas com a referência de um L, fantasma do sul, que se diz feio. “Hum, será?” Eu duvidei disso. Ele não fez questão de falar muito de si e eu também não quis insistir. Podia ficar perigoso. Perigoso para mim. Lembro de ele ter perguntado se eu gosto de aventuras. Não sei o que ele quis insinuar com isso, mas eu fiquei estranhamente ainda mais atraída. Foram raras as vezes em que me apaixonei por alguém e por uns instantes... surgiu uma desconfiança interior de que eu pudesse estar indo mais longe do que deveria.

A interação estava tão boa que eu até esqueci um pouco a vida real. Mas ele, sem saber, com as suas perguntas diretas me lembrou disso. Foi como cair em um precipício. Temi que a resposta o afastasse completamente de mim, mas ele continuou... De certa forma, eu sabia que isso daria uma certa “esfriada” na conversa. Eu tive que dizer a verdade. Não sei o que ele pensou de mim e isso me deixou um pouco preocupada. Por quê? Ele insistiu nas perguntas: “O que está procurando?”. “Conversa”, eu disse. Quero conversar, apenas conversar... Eu mesma tentei me convencer disso várias vezes falando isso pra ele. Quero fugir de tudo que está dando errado. Ele questionou esta minha atitude e disse sem meias palavras o que eu deveria fazer. Não tenho coragem, disse. E ainda acrescentei "mil e uma desculpas". Mudei de assunto.

Incrível como um desconhecido me fez sentir viva novamente... mas ele é algo tão distante! Tão distante... e ao mesmo tempo tão próximo. Ficou o tempo todo no meu pensamento. Nem consegui dormir direito. Não quero nem pensar em como ele é e como pode ser pessoalmente. Como fala... O timbre da sua voz... O cheiro... É loucura.  Fiquei impressionada (talvez seja só isso) por ele ser completamente diferente. Ele vai contra a correnteza. Tão comedido. Só não foi econômico com as palavras. Primeiro homem que eu vi escrever, ou melhor, digitar tão bem. Frases inteiras sem um emoticon!!! Que milagre, meu Deus! Primeiro ser humano que eu encontro em bate-papo que não foi corrompido pelo besteirol virtual!

Estou fascinada com a capacidade dele de argumentar, raciocinar rápido e dar respostas prontas como eu faço com os outros. Ele me “derrubou”... E, convenhamos, eu quis ser derrubada, mas não “caí no chão”. “Seus braços me seguraram”. Ai, esse joguinho me deixou flutuando. Um ritual típico de flerte. Ficou nas entrelinhas que estamos atraídos um pelo outro, mas eu vou esconder isso dele o quanto eu puder...  Apesar da placa luminosa gigante em nosso caminho...”PARE”. Não quero parar... E é isso que está me dando medo. Medo que só não supera a minha alegria. Tem um brilho diferente no meu olhar. Um sorriso bobo querendo escapar. Como vou conseguir esconder isso?

Ele me acompanha. Temos ritmo. Foi tão bom papear com ele. Preciso de mais disso que só ele foi capaz de me dar. Ele é o único com quem consegui até agora conversar de forma tão natural e, ao mesmo tempo, profunda. Um rapaz inteligente, observador, que me deu atenção, educado (e gosta de anime!), sério e com umas falas que me deixa de queixo caído. Sei que isso não é o suficiente, mas superficialmente falando é até mais do que eu esperava para um parceiro de conversa. É incrível, mas nem com as pessoas mais íntimas a minha conversa se encaixa tanto quanto se encaixa na dele.


Por quê? Por quê? Por que tão distante? Por que só agora? O que a vida quer fazer comigo? Eu me sentia tão só.. tão só. Queria apenas uma companhia para conversar, matar as horas. Não pensei que fosse me apegar. Não imaginei que fosse me envolver. A minha mãe costuma dizer: “quem procura, acha”. Eu procurei, tudo bem. Mas nunca pensei que eu fosse perder o meu controle. Estou tão vulnerável.  Parece até coisa de filme... Um personagem que só existe por conta de uma fantasia, mas por quem já me apaixonei (assim tão rápido?) irremediavelmente. Vou tentar ignorar isso e levar a vida normalmente. Acho que consigo... Mas só depois que eu “descer da nuvenzinha”.




Misa


Quarta-feira, 26 e Quinta-feira, 27.03.2008 (continuação sobre a 1ª conversa)

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