"Fragilidade, teu nome é mulher..."
Cena II, Ato I, (Hamlet)
William Shakespeare
Nos encontramos (por acaso) novamente durante a tarde. Ele estava fazendo cópias de DVDs e eu baixando alguns arquivos. Depois comecei a pesquisar sobre gestão de tempo, enquanto ouvia Rie Fu. A conversa ia caminhando a passos lentos, então aproveitei para assistir a um episódio de Yu Yu Hakusho e quando lhe falei, começamos a falar das nossas “coleções” de animes.
Falando sobre o Japão, ele mencionou que gostaria de fazer computação na universidade de Tokyo. Imediatamente, lembrei que dias atrás ele me disse que estava pensando na possibilidade de transferir o curso dele no meio do ano para outra cidade. Falei que não duvido que ele ainda vai acabar indo embora. Então, para aumentar a minha tortura, ele disse que só vou "incomodá-lo" nos fins de semana. E arrematou com a pergunta “O que acha disso?”. Não sei ainda com qual intenção. E eu falei abertamente que “acho ruim”. A minha resposta foi simples, apesar de não entender a coisa complicada que estava se processando dentro de mim.
Não sei nem explicar a tristeza que senti com o fato de conversarmos com menos frequência e que talvez ele possa ficar ainda mais distante. Contudo, ultimamente, não tenho tido vontade de insistir com ninguém. Quando se luta muito por alguém, você acaba se cansando. É o que está acontecendo comigo. Estou cansada de tudo que já passei e não vou insistir, nem repetir fórmulas que não deram certo. Por outro lado, se eu continuar fugindo, posso estar perdendo talvez a minha grande chance de ser feliz.
Ele continuou com o tormento falando da possibilidade de “sumir” da net. Ele sabe que isso vai me abalar. Afinal, logo no 1º dia em que nos encontramos foi a primeira coisa que lhe pedi para que não fizesse. Ainda nem sei como ficarei se isso acontecer mesmo. Vou sentir muita falta dele, no mínimo. Mas eu não disse nada disso. Eu apenas me revesti com a minha capa familiar de resignação. Ele está me testando? Impossível saber disso agora. Pelo visto hoje ele resolveu ir a fundo... Quer puxar alguma verdade de mim? Não sei com quem intenção ele começou a questionar sobre como é para estudar, trabalhar aqui.
Só de pensar nessa possibilidade, senti meu corpo quase que paralisar. Minhas idéias ficaram tumultuadas. Ao mesmo tempo em que respondia tentando esconder o meu nervosismo numa falsa tranquilidade, eu pensava... Como assim? Vir para cá? Por que raios ele viria para este meu fim de mundo? Esta eu não entendi, mas uma luzinha verde começou a piscar dentro de mim. Será? Será? Será? Será se ele está tentando dizer que gosta de mim? Não... Não... Não pode ser. Eu ignorei e continuei a considerar a possibilidade da ida dele para outra cidade. Mas ele continuou calmamente a insistir.
Na hora só queria saber por que ele estava fazendo estas perguntas, apesar de ter respondido na maior naturalidade. E quanto mais eu me fazia de tonta, mais ele jogava bombas... Minha cabeça dando voltas... Como é que é? Ele falou em morar??? Mas como assim?! Eu não acreditei mesmo que ele estava falando sério, e dei um jeito de fugir do assunto, mas isso não foi tudo o que pensei. Imaginei algo próximo de nós dois juntos e isso foi muito bom. Desejei-o neste momento e a possibilidade de tê-lo me fez vislumbrar por alguns segundos a realização do meu desejo secreto. Ele percebeu a vagueza das minhas palavras, fez questão de ignorar e insistiu... Dei uma resposta bem realista e ele finalizou avançando sem pisar na realidade, sem esmagar as possibilidades.
Dúvidas. Medo. Incerteza. Nem sei mais o que eu sinto. Perdi-me nas reticências. Apenas sei que estou apaixonada. Voltamos a falar sobre download e sobre arquivamento e capacidade de gravação de CDs e DVDs. E ele voltou a tocar em assuntos que eu estava tentando evitar discutir. Ai, ele me pega de jeito. Não tem como fugir. Estou ficando num beco sem saída. O que ele quer? Assim, uma hora ou outra vou acabar me entregando. Perguntou se eu não tinha ficado chateada com a última pergunta que ele me fez ontem, e eu disse que não.
Depois disso um clima de cumplicidade surgiu entre nós dois. Começamos a tocar nossas intimidades (embora ele tenha dito com outras palavras que não), nossos pensamentos mais pessoais. Disse-lhe que só contava a ele o que acontecia comigo. Queria que percebesse que ele é especial para mim, mas ele tomou a declaração como um título que eu lhe dei de “meu confidente”. E eu confirmei, mas queria ter dito também que ele é muito mais que isso. Ele agradeceu. E segui com meu discurso dissimulado e, ao mesmo tempo, verdadeiro. Eram duas lutando dentro de mim. Nunca dei espaço para a outra, sonhadora. Agora ela veio com toda a força e eu tento sufocá-la. Gosto dos conselhos dele, mas gosto muito mais de ser parte da vida dele, de saber que estou presente em todas as noites em que ele passa em claro, que por algum motivo, o faço pensar em mim ou na minha vida problemática.
Ele sabe como mudar de foco. Me pressiona. Parece que gosta. Perguntou como eu o imaginava em questão de aparência. Fugi. Disse que queria testar minha imaginação. Não tenho uma imagem formada dele, realmente, mas tenho alguns palpites. Só não quis arriscar. Sei como é quando alguém faz suposições irreais sobre sua aparência. Imaginar é o que fazemos para preencher um espaço que se abre. E na minha mente tem um: o lugar da representação dele. Por um lado a curiosidade é enorme, mas outro me angustia a idéia de como ficarei depois de saber como ele é, pois não poderei mais camuflar o que estou sentindo. Como irei controlar meus pensamentos? Impossível. Pedi para que ele não aparecesse para mim e perguntou se poderia dar uma “opinião cretina”. Permiti. E a opinião dele arrancou-me todos os disfarces.
Depois ele disse que estou bem frágil. Eu não tinha pensado nisso, mas a verdade é que o meu modo de falar deixa claro que nunca tive um relacionamento com sentimento forte, sólido e mais importante, recíproco. E nesse momento, senti que nos tornamos cúmplices, porque mesmo que ele diga que não se mostra a ninguém, sem querer está me mostrando um lado que ele esconde: um homem sensível, afetuoso, compassivo. E eu estou amando, me entregando. Disse que gosto dele, mas parece que ele recebe o meu “gostar” como “no momento, você é apenas um amigo”. E tudo volta ao que estava antes. Eu saio catando os cacos de mim e ele retorna à sua habitual persona fria e distante, mas deixando as pegadas de alguém que por um instante revelou se importar comigo.
Uma ligação interrompeu a conversa e voltamos a conversar sobre trivialidades e outras coisas que ele mesmo chamou de "cultura inútil": sobre como abrir manualmente a bandeja de DVD com o PC desligado. Então, ele mudou de assunto. E veio com uma pergunta sobre beijo. O que ele disse ficou martelando na minha cabeça. Fiquei pensando que até hoje não tive um grande beijo; algum que me fizesse suspirar ao lembrar; algum que tivesse marcado minha memória. Nenhum. E os assuntos sobre música voltaram, mas logo ele teve que sair. Demos uma pausa na conversa. E eu fiquei a pensar no beijo que ainda não aconteceu. Infelizmente, depois cada um fica na sua e logo o assunto parece nunca ter acontecido. Mas a verdade é que uma porta entre nós dois, indiscutivelmente, ficou aberta.
Misa
Domingo, 20.04.08

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