Um beijo, mas, enfim, que grande coisa é essa?
Jura que de mais perto é jurada, promessa
Mais clara, confissão que quer confirmação;
Ponto róseo no "i" da palavra paixão (...)
Edmond Rostand
O tempo todo ele dava a impressão de ostentar a certeza
de que não era um tipo atraente, mas escondia a suspeita de que sabia que eu
tinha gostado do que vi. E, de fato, eu gostei. Declarei este eufemismo gigantesco
perto do que foi realmente. Mas deixei, a princípio, que ele pensasse que foi
exatamente assim. Mil perguntas começaram a tentar me tomar daquela avalanche de felicidade sem
motivo, sem precedentes. Parece que foi
proposital, ele tinha a intenção de me fazer ficar pensando nele, pensei. Ele
já havia percebido que eu tenho interesse nele? Ele estará jogando comigo?
Disse ele que me mandou a foto porque gosta de mim, mas eu fiquei realmente perdida nos sentidos desse “gostar”.
Me perguntou o que eu achava de ter um rosto para
pensar... e fui sincera em dizer que preferia pensar que é alguém que nunca vou
ver, ter. Então, sem perceber que estava alimentando meu desejo adolescente, ele fez questão de me lembrar que “o mundo é bem pequeno”. Nessa
hora eu inspirei tão fundo que pareceu uma eternidade até voltar a expirar.
Conspirei para que aquela beleza incomum ficasse me
provocando e deixei a foto aberta por um longo tempo na tela do computador. Eu
fiquei a encará-lo. O olhar verde, sério, enigmático, querendo me capturar.
Aqui sozinha no meu quarto com a foto, eu não queria mais fugir, queria
mergulhar naquele mar verde de mistérios por trás dos óculos de lentes
amareladas caindo propositalmente sobre o nariz fino e comprido... a boca bem
desenhada e meu desejo desenhando outras formas e movimentos por cima dela.
Ah... Como é cruel, a vida, as probabilidades, o desejo e a maldita interdição.
Minha contemplação se
arrastaria por horas, mas fui interrompida pela cobrança. Ele queria saber se
eu ainda mandaria uma foto minha sorrindo. Uma foto antiga, decerto seria,
pensei tentando achar uma solução. Não sou boa com sorriso. Estou sempre tão
trancada... tão reclusa. Esse “pôr para fora minhas emoções” me deixa tão
desconcertada... mas não conseguia pensar nisso. Meu cérebro estava contaminado
por toda aquela bioquímica que até agora não sei como se ativou por conta da
imagem de alguém que aos olhos mais críticos não seria tão exuberante. Mas
havia muito mais do que só as linhas naquela foto. Havia a nossa interação
incomum, o peso das horas que “passamos juntos”, as identidades
compartilhadas... e outras coisas que não sei expressar agora, tudo conspirando
contra uma possível recepção banal. Mas não poderia ser. Eu vi muito mais do
que estava ali.
Não sei se por vaidade, interesse ou curiosidade, mas a pergunta chegou em mim meio esperançosa: “será se você vai se
apaixonar por mim, fessora?” Eu simplesmente, me escondi no meu risinho. Não
que tenha sido proposital, eu apenas não sabia o que dizer, entre negar e
afirmar, optei pela omissão. Ele insistiu, dizendo que o meu silêncio indicava
que ele não tinha perdido nada e continuou dizendo que espera que nos
encontremos um dia por aí, “sem querer”... assim, usando aspas. Mesmo que
sutil, isso foi tão revelador. Ou será que estou forçando direções que não
existem?
Intencional ou não, puro ou não, as investidas dele
serviram para eu dar vasão ao que estava ganhando forma
dentro de mim e comecei a revelar as sensações estranhas que a foto dele que me fez sentir.
Então, ele aproveitou para me dar a resposta para aquele enigma exposto outro dia. Mais descargas de adrenalina em minha corrente
sanguínea... minha respiração estava desordenada só em vislumbrar a configuração da cena que ele me entregou ... Disse que tentaria
roubar um beijo meu, e que através dele, me roubaria aos poucos. Quê? Eu realmente li isso?! Eu sou tão
cuidadosa, mas há como interpretar isso de outra forma a não ser “ele me deseja”? Não! Mas o meu resto de juízo, disse "sim". Então, prossegui com meus cuidados. Poderia ser um blefe, uma jogada para levantar
o próprio ego ou simplesmente para me desarmar.
Ah, mas como eu quis neste momento, que fosse verdadeiro! Meu desejo clamava por isso. Ignorei todos os avisos e ponderações. Se eu não me arriscasse, nunca sairia daquele ponto. E a dúvida
sobre como teria sido, me perseguiria. Antes que eu pudesse me preocupar com a minha confissão de que ele estava mexendo comigo, ele também confessou em tom de
confirmação que faz tempo que me paquera e (para meu constrangimento) que eu
correspondo. Droga! Ele me descobriu! Ah, mas toda a vergonha estava ofuscada pela consumação do meu desejo: ele corresponde! Eu queria acreditar nisso. Não queria
estragar todo o viés romântico desse suposto encontro de intenções, pensando em jogadas masculinas.
O inquérito continuou e ele me perguntou
se eu não sabia que isso poderia acontecer. Rebati, falando que não levava a sério. Sem pausas, perguntou se eu preferia que fosse só brincadeira e admiti
sem hesitação que não, o que realmente queria era estar no mesmo lugar que ele.
Para aumentar minha agonia ele confessou que é de pegar estrada e seguir rumos
diversos... a possibilidade veio de novo correndo bater à minha porta e pronto... previsão
das próximas horas: mais uma noite sem dormir.
Ele se despediu, dizendo que era para eu não esquecer (como poderia?) o
que tinhamos falado e que se fosse do meu interesse, queria continuar.
Continuar?! Isso é tudo tão insólito! Eu mal posso imaginar o que vem a seguir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário