Tem-se por inocente desejar
e atroz
que o outro deseje.
Marcel Proust
Hoje a conversa começou mais desenrolada que ontem, mas
não sei por que aquela impressão de que ele não estava “ali” 100% continuou me
incomodando. Falei diretamente que ele parecia estar longe e veio a confirmação
de que estava “pensando nos problemas”. Procurei não insistir muito no assunto,
para não “deprimi-lo” ou deixá-lo de mau humor. Fui até otimista, apostando que
ele conseguiria resolvê-los, mesmo que eu tenha tido a impressão de que não adiantaria
muito qualquer coisa que eu dissesse.
Quis animá-lo um pouquinho (eu tinha “dezenas” de outras intenções ocultas, mas a principal era desviar realmente o foco daquele tema negativo) e mandei outra foto minha, na qual estou usando óculos. Na foto, eu estou de corpo inteiro, formalmente vestida em meu local de trabalho, trajando uma saia longa daquelas que destacam bem a silhueta e ressaltam a minha magreza. Nesse ponto da escolha, talvez tenha passado pela minha cabeça uma segunda intenção... querer saber se de alguma forma eu seria capaz de despertar interesse nele. Se ele me acharia atraente, se eu me encaixaria... Mas não, essas questões estavam “fora de questão”.
Quis animá-lo um pouquinho (eu tinha “dezenas” de outras intenções ocultas, mas a principal era desviar realmente o foco daquele tema negativo) e mandei outra foto minha, na qual estou usando óculos. Na foto, eu estou de corpo inteiro, formalmente vestida em meu local de trabalho, trajando uma saia longa daquelas que destacam bem a silhueta e ressaltam a minha magreza. Nesse ponto da escolha, talvez tenha passado pela minha cabeça uma segunda intenção... querer saber se de alguma forma eu seria capaz de despertar interesse nele. Se ele me acharia atraente, se eu me encaixaria... Mas não, essas questões estavam “fora de questão”.
Depois que a foto “foi”, passou por mim, brevemente, um
certo medo mesclado com arrependimento. Pensamentos
sobre o que ele estaria pensando ao meu respeito começaram a me torturar.
Fiquei a avaliar externamente a minha própria atitude. Sou sempre cheia desses “cuidados”.
Mas logo a minha avaliação foi interrompida pela análise
dele. Começou a comentar sobre o meu corpo de uma forma tão direta, séria e, ao
mesmo tempo, meio “descarada” que se ele estivesse me vendo, teria percebido que
fiquei completamente sem jeito, embora, agora, eu deva confessar que gostei,
gostei muito.
É claro que optei por não deixar isso óbvio, tentando
reagir às suas palavras da forma mais natural possível. Mas logo fui perseguida
pela supeita de que ele havia me descoberto nesse ponto. Fiquei tão inquieta,
que não tive outra escolha a não ser empreender uma rápida fuga. Então,
mudei completamente o foco, comentando sobre um álbum de Tanaka Rie e acho, não,
tenho quase certeza de que ele percebeu o meu recuo e, por isso, logo me
impediu de escapar, fazendo perguntas sobre o porquê de eu ter me “mostrado”
para ele.
Foi um tanto difícil explicar a minha intenção, pois meus
pensamentos estavam mais concentrados na ideia de que ele poderia concluir
erronenamente que eu tenho um lado exibicionista. Ainda com uma centelha de preocupação me incomodando, tentei fazê-lo entender que não é algo que
faço normalmente e disse ainda que a intenção não era exatamente me expor
diante dele, mas dar um sinal de que eu estava sendo verdadeira. Não queria
apenas mostrar-lhe que o considero importante, pois já era um tanto evidente
pelo fato de ele ser uma das raras pessoas a quem mostrei uma foto minha
através da internet.
Para o meu desespero e também para a minha alegria, ele perguntou se eu gostaria de ver uma foto “antiga” dele, de três anos atrás. Não consigo nem descrever como foi a
sensação de ter a impressão do coração “batendo” em vários locais do corpo. Tamanha
foi a minha surpresa diante daquela súbita pergunta
que eu quase “emudeci” e, felizmente, minhas palavras não puderam denunciar a
evidente agitação que crescia absurdamente em mim. Ele pediu que eu fosse sincera, independente
da minha impressão, mas eu nem atentei para o pedido, pois eu tinha a plena convicção de que ao vê-lo estaria decretando a minha perdição.
Os segundos que se passaram do envio até a abertura do
arquivo que continha a foto produziram efeitos em meu corpo que para mim poderiam equivaler ao resultado de umas 10 voltas seguidas num estádio. A adrenalina me
deixou pesada e, contraditoriamente, leve e feliz. Não sei dizer o que foi aquilo,
mas eu senti como se não tivesse chão para os meus pés. E, embora eu estivesse
confortavelmente sentada, senti que se estivesse de pé, eu mal poderia sentir o
meu próprio peso naquele momento. Eu poderia ter falado várias coisas, mas
todas as letras, sílabas, palavras e sentenças de um idioma inteiro foram
consumidas pelo meu espanto e encantamento
diante daquela imagem.
Senti-me tão
invadida por uma onda de sensações e sentimentos, projeções, fantasias que demorei séculos em segundos para me convencer de aquilo não era uma miragem e que o meu desejo não configurava exatamente um grave delito. O pesar de não poder tocá-lo (o que dirá tê-lo!) e a vergonha de sentir tudo aquilo foram ofuscados pelo mais puro e maciço regozijo ao fitar as suaves linhas da face daquela existência na qual eu queria fundir a minha.
continua...

Nenhum comentário:
Postar um comentário